Maria Madalena, a Igreja Católica e a Cultura Machista - Salve Papa Francisco!


Antes de colocar minhas ideias e questionamentos a respeito da relação que vejo entre a Igreja Católica e a cultura machista, gostaria de esclarecer que minha intenção não é apenas criticar ou julgar, mas sim promover diálogos e reflexões sobre o papel da Igreja na formação da nossa cultura.

Como filha de uma boa família católica cresci dentro da Igreja, estudei em colégio de freiras e de padres e como tal me sinto legitimada a falar a partir da minha vivência neste contexto.

Aprendi nas aulas de catequese que a mulher surgiu da costela de Adão, que Eva se transformou em serpente para seduzir Adão a comer o fruto proibido em desobediência às ordens de Deus.

Depois me ensinaram que Maria Madalena foi uma grande pecadora perdoada por Jesus Cristo. Ensinaram também que a mãe de Jesus era outra Maria, a imaculada, virgem e pura.

Conta-se que os primeiros padres da Igreja excluíram das escrituras sagradas o registro da vida de Maria Madalena que era uma mulher que manifestava uma sensualidade sem pudores e, ao mesmo tempo, uma intensa espiritualidade. O que se sabe de Maria Madalena hoje está registrado nos evangelhos gnósticos, rejeitados pela Igreja Católica.

Hoje percebo claramente o peso das projeções moralistas da sociedade patriarcal nos dogmas e ensinamentos da religião católica e toda a sorte de sofrimento e violência causados à humanidade em nome de 'Deus'.

Como exemplo temos a criação de 'modelos' diferentes de 'Marias'. Maria Madalena a mulher pecadora e prostituta e, Maria, mãe de Cristo, a virgem e imaculada.

Maria Madalena, vista como pecadora e prostituta, passou a representar em nossa cultura a sombra do feminino, seu lado negativo, em oposição à luz da Virgem Maria, pura e sem pecado original.

Mirella Faur aponta que: "esta sombra afetou profundamente o psiquismo da mulher, provocou uma cisão em sua personalidade e causou toda sorte de repressão, perseguição e culpa feminina em relação à sexualidade. Ao longo de milênios, preconceitos disfarçados em religião foram transformados em acusações, maledicência, perseguição e violência, deturpando as verdades originais.

Os inúmeros ensinamentos cristãos sobre amor incondicional e perdão não conseguiram aplacar o preconceito, o horror feminae dos homens, o medo irracional do poder feminino e a rejeição contra tudo que lembrava as antigas tradições pagãs da humanidade que reconheciam e reverenciavam a sacralidade feminina."

O monoteísmo instaurado em nome de um único Deus masculino representa a passagem de uma concepção de cálice (ventre, amor incondicional, cultura de parceria) para espada (poder, imposição, medo, cultura de dominação). (Riane Eisler- livro o Cálice e a Espada)

Desde que apareceu a noção de pecado a partir do pecado original, o que se tenta exorcizar é o sexo, o pecado da carne em oposição à pureza da alma.

Temos como consequência o pensamento dicotômico e deturpado de divisão entre corpo e espírito, virgem e pecadora, masculino e feminino, anjo e demônio, bem e mal, verdade e mentira.

As consequências destes ensinamentos são sentidas até hoje quando observamos a diferença de tratamento e educação que pais e mães dão às filhas e filhos. Provocando o entendimento absolutamente nefasto de que homens devem ser tratados como homens e mulheres como mulheres.

Esta concepção está absolutamente ultrapassada e deve ser transformada sob pena de continuarmos aceitando desrespeitos e reiteradas formas de violência contra seres humanos.

Independentemente de qual gênero for a pessoa, como imagem e semelhança de (DEUS/DEUSA) deve ser tratad@ e considerad@ na sua plenitude que abarca aspectos tanto masculinos como femininos.

Quero acreditar que estamos vivendo um momento de despertar para novos valores.

Papa Francisco tem se mostrado mais aberto e consciente sobre os vários problemas que pesam sobre a Igreja, como: pedofilia; preconceito contra gays e mulheres, terrorismo e intolerância aos refugiados.

Papa Francisco tem tido a coragem de questionar e valorizar o papel da mulher na Igreja não apenas como coadjuvante.

Papa Francisco, desejo do fundo da minha alma que você continue a questionar verdades consideradas até então absolutas e consiga promover ampliação de consciência dos fiéis católicos com relação a questões tão complexas como machismo, preconceito, exclusão, intolerância e violência contra os gêneros.

Seria maravilhoso se a Igreja pudesse rever estes ensinamentos e conseguisse maior coerência com os valores que Jesus Cristo, pregou em sua vida, como: generosidade, amorosidade, inclusão e respeito pelos seres vivos e pelo meio ambiente.

Seria transformador se @s católic@s conseguissem perceber o quão sexistas foram os patriarcas da Igreja ao excluírem das escrituras a história de Maria Madalena. Causando menosprezo ao inconsciente do cristianismo com relação à sacralidade do ventre feminino seja ele pertencente à Maria Madalena ou à Virgem Maria.

Ainda há muito a ser feito....

Salve Maria Madalena! Salve Papa Francisco! Uma nova cultura nos SALVE!